sábado, 7 de janeiro de 2017

Mário Soares


Sou Socialista, Republicano e Cristão, ao contrário de Mário Soares, que foi Socialista, Republicano e Laico. Mas Soares, foi toda a vida um cristão, na sua verdadeira acepção da palavra. Afirmava-se laico por convicção, mas também para vincar a "separação de poderes" entre Estado e Igreja, permitindo o desenvolvimento democrático de um Estado laico, ao contrário do verificado no anterior regime, onde Estado e Igreja mantiveram uma conivente relação que tinha tanto de promiscua como de perversa.

Conheci Mário Soares, em 1980, pouco antes das legislativas desse ano, era eu ainda uma criança. À sua volta havia uma aura, um esplendor, inexplicável. Era algo que sentíamos dentro de nós, que nos impelia uma mudança de palpitação, sempre que ele estava para chegar. Mário Soares era uma figura imponente, cheia de vida, que contagiava, que liderava, que motivava, porque era um homem de afectos que transbordava calor humano por todos os poros. Olhar para aquele homem era como se estivéssemos a olhar para um castelo. Soares era uma força da natureza. Sedutor nas palavras, corajoso e determinado, firme nas convicções, foi um homem de causas e lutou pelas suas convicções provavelmente até ao último sopro de vida.

Entrava numa tasca e cumprimentava o povo. Pedia um bolo de bacalhau e um copo de vinho e bebia com o povo. Era um grande conversador, um contador de histórias, um homem que estava sempre a aprender e com quem muito se poderia aprender. Enfrentava sempre a multidão, quer fosse a seu favor quer estivesse contra si. Este homem não era do povo, mas era no meio do povo que se sentia bem. Soares era a política, o homem, o animal político, sempre leal com os adversários, mas implacável, na defesa dos valores democráticos, da tolerância, da igualdade, da justiça e do humanismo.

A historia da vida de Mário Soares confunde-se com a historia contemporânea do país. A influência republicana que herdara do pai, a incessante luta pela liberdade, as sucessivas prisões, a defesa dos presos políticos enquanto advogado, o apoio a Humberto Delgado, o General "sem medo" nas eleições de 1958 e sua representação após o seu horroroso assassinato pela PIDE, que lhe custou uma vez mais a prisão, a deportação para São Tomé, sem julgamento, o exílio político, a fundação dos movimentos socialistas de oposição ao regime, a fundação do Partido Socialista, determinante para granjear influência e apoio internacional na ajuda ao derrube do regime , mas sobretudo na construção democrática no pós 25 de Abril, ajudando Portugal a tornar-se um pais livre e rasgar as vestes do passado que nos amordaçou, como bem descreveu no seu Portugal amordaçado.

Um dia no Peso da Régua, em Setembro, numa campanha eleitoral para as legislativas de 1999, fui a um jantar onde estava Mário Soares. Deveriam estar mais de 1000 pessoas nesse jantar e comício. Soares, igual a si próprio, ia comendo bolos de bacalhau e bebendo um tinto do douro, enquanto cumprimentava as pessoas, mesa após mesa, não deixando ninguém sem o seu caloroso aperto de mão e contagiante sorriso.

A ultima vez que estive com ele alguns minutos a conversar foi na estação de serviço de uma autoestrada, há pouco mais do que três anos. Soares saiu do carro, pelo seu pé, acompanhado do motorista. Quando o vi, já não entrei no carro, para prosseguir viagem. Tinha que o cumprimentar. O meu coração acelerou e aquela sensação de estar a ver um palácio à minha frente manteve-se. Mário Soares, igual a si próprio. Tratamos-nos por camaradas e falamos durante alguns minutos. Soares, é, depois do meu pai, a minha maior referência política.

Nunca vi nem conheci um político tão combativo como Mário Soares. O animal político, talvez o único e ultimo estadista. Um imortal.

Até sempre camarada.