terça-feira, 17 de junho de 2014

triste fado

No pais do samba, do calor e do carnaval, Portugal, exibiu um triste fado.

A alma lusitana, que descobriu as terras de Vera Cruz, nem por sombras pairou em Salvador da Bahia, a muito poucos km do lugar em que Pedro Alvares Cabral desembarcou, para descobrir um novo mundo, que viria a chamar-se, Brasil.

Não vou entrar em lugares comuns, tão apetecíveis nestas alturas. Estranhamente, somos um povo que tão depressa exulta os seus heróis como de repente os excomunga da pátria.

Desde que esta febre colectiva de ver a bola em ecrãs gigantes nas ruas e praças do país pegou moda, que os sentimentos explosivos, de euforia desmedida ao repudiante escárnio e mal dizer se tem vindo a aprofundar entre nós. Tão depressa colocamos alguém nos píncaros, como a seguir o enxovalhamos na mesma medida. A nação, precisa de se deitar no divã, porque sofre de bipolaridade.

Preferindo o recato de casa ou de um café simpático, acompanhado de um ou outro amigo e de umas cervejas, em detrimento destes ajuntamentos de massas, lá vi a Selecção Nacional ser cilindrada perante a poderosa Alemanha. A história diz-nos que só lhe tínhamos ganho 3 vezes, em 17 encontros.

Se formos racionais e frios, como eles são, via-se bem, que ainda não seria desta, que a coisa poderia ser diferente das outras. Os Alemães são mais fortes, mesmo não tendo o melhor do mundo, que, mesmo sendo o melhor, não joga sozinho e precisa de estrutura, sobretudo, fora do campo.

O Brasil, é um país fantástico. Tive a oportunidade de já lá ter ido. O mundo cabe no Brasil. É um mundo, em ponto pequeno. O clima é muito diferenciado de Estado para Estado. Sabendo disso, a opção de instalar o quartel-general em Campinas, é estranha, se tivermos em conta que na primeira fase, as batalhas ocorrerão em Salvador, Manaus e Brasília. Não apenas pela diferença climatérica, entre São Paulo (o Estado onde estamos instalados) e as cidades onde vão ocorrer os jogos, mas também pelas distancias entre as cidades. Imagino como foi pesada a viagem de ontem, de Salvador para Campinas.

À uma da tarde portuguesas, nove horas da manhã na Baiha, já os alemães treinavam, para melhor se adaptarem ao clima, quente e húmido. O jogo havia de acontecer à uma da tarde Brasileira, cinco horas da tarde em Portugal.  

Contas feitas e apenas como exemplo, Portugal, fará no Brasil, cerca de 10.000 km em viagens, nesta primeira fase de 3 jogos. A Alemanha percorrerá, cerca de 6.000. Resumindo, isto revela, uma vez mais, algo em que os Portugueses são pródigos: mau planeamento. Agora, valha-nos a capacidade de desenrasque, arte onde efectivamente somos peritos.

Antes do Brasil, andamos pelos EUA, a espalhar charme e a explorar a imagem de CR7, o que rendeu certamente uns bons cobres aos cofres da Federação. Não sei se estão recordados, mas no mundial de futebol de 2002, realizado na Coreia, fomos estagiar para Macau. Na altura tínhamos uma selecção fabulosa, Figo, o melhor do mundo da época, Rui Costa, João Pinto, Couto, Baia entre outros. O resultado viu-se. Nem com o passado aprendemos. Devíamos ter ido mais cedo para o Brasil.

As opções do seleccionador são discutíveis. Na convocação, optou por não chamar alguns atletas, que hoje dariam imenso jeito, especialmente após as contrariedades de ontem. Ficamos sem Coentrão e agora teremos que adaptar alguém na esquerda, porque Antunes ficou em casa. Outros fariam falta, mas Bento, tinha um grupo, fez o europeu e o apuramento para o mundial com esse grupo e é com esse grupo que vai até ao fim. São as suas convicções, para alguns, pura teimosia.

Poderiam ir outros, as soluções seriam diferentes, surgindo as adversidades, que agora se colocam, mas o resultado, talvez não fosse assim tão diferente, se ontem, no lugar de alguns jogassem outros, porque uma equipa, um grupo, não se constrói assim, de um dia para o outro.

Pensemos que os 3 grandes clubes nacionais fartam-se de contratar jogadores estrangeiros. O campeão, talvez não tenha um titular, no onze da época. Quando assim é, não podemos querer opções com qualidade, capazes de num curto espaço de tempo, substituírem os que agora parece não renderem o que já renderam, porque o jogador português não é uma opção no campeonato nacional, nem uma preparação para um mundial se faz juntando atletas que não estão habituados a convier e a jogar entre si. Sim, havia dois ou três, que teriam lugar e outros dois ou três que lá estão, que não deveriam ter embarcado. Sim, dos que lá estão, podem sempre jogar outros, porque se lá estão, têm tanta capacidade como os substituíveis. Só há um insubstituível, o melhor do mundo, que ontem foi medíocre, no meio de um naufrágio colectivo e hoje está arrasado pelo peso da crítica.

Ontem, naufragámos em terras que descobrimos. A lei de Murphy aplicou-se na plenitude. Tudo correu mal, ou nada correu bem. O orgulho está ferido, há também atletas afastados por castigos e lesões e a bruma de guerra manda desenrascar. Um cenário perfeito para os Portugueses. Em Manaus, lembremos Álvares Cabral, já que na terra que ele pisou pela primeira vez e deu a conhecer ao mundo, não fomos dignos da sua epopeia.

Venham os ianques, para dar a volta e seguirmos viagem, com fado, vadio, mas moderno, no país do samba.